domingo, 21 de junho de 2015

Cicatrizes Mal Ditas

Todos nós temos cicatrizes. Dos mais variados tipos. Aquela esfolada no joelho descendo a rua num rolimã, um relevo permanente na cabeça de um descuido durante um disputado pega-pega na terceira série. Temos as mais sérias, de uma cirurgia, que deixa pontos, marcas que podem ser esteticamente preocupantes. Ou ainda as emocionais, essas sem dúvidas, as mais complexas.

Dentre todas essas, o processo de cura parece ser o mesmo. Arde muito quando acontece, fica coçando enquanto cicatriza, e depois continua como uma lembrança indelével daquele momento em que ela aconteceu.

Como é bom cutucar uma casquinha que está querendo cair, e quando cai, uma pele novinha por baixo. Ou tirar os pontos, sentir o alívio que isso proporciona, até sentirmos que algo está totalmente curado, cicatrizado.

Mas não funciona assim pras cicatrizes emocionais. Elas não têm casquinha pra gente cutucar, nem pontos pra tirar. E apesar de sentirmos que está tudo bem e cicatrizado, é uma ferida que ainda continua aberta, e que com um simples cutucão volta a doer imensamente.

Foi um sonho. Não. Uma sequência de sonhos. Sonhei que estava tudo bem, que conversávamos normalmente e amigavelmente, apesar do cuidado mútuo. Pude te abraçar. Nada mais que isso. E quando acordei, aquela ferida fechada e esquecida reabriu como uma fenda de lava, entorpecendo, aquecendo e doendo.

Já faz pouco mais de dois anos que não nos falamos, nem um simples oi. Você já me buzinou o carro agradecendo a passagem, sem saber que eu era eu, pois senão sem dúvida teria jogado em cima de mim. Mas a ferida só abre mais e mais, e acho que é algo que nunca poderei cicatrizar.

É uma cicatriz mal dita, pois ela me lembra constantemente da dor que sinto ter causado em você, e acho que ela é até justa, para compensar todos os danos e cicatrizes que eu sei que causei.

Mas de tudo que essa cicatriz é diferente das outras, elas tem algo fundamental em comum. São uma lembrança indelével de todos os momentos que a causaram, e como sempre digo, melhor do que não se machucar, é se machucar por algo que vale muito a pena.

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